Capítulos (2 de 5) 18 Apr, 2022
Capitulo 1 - pags 09-12
sorrindo para ele como se ele tivesse colocado as estrelas no céu. – Qual a ocasião especial então? Você não me levantou de madrugada só para fazer um lanchinho ne?
— ‘Tá bom, eu concedo. Feliz aniversário sua anta. – Pedro murmurou, cruzando os braços, até Davi se jogar em cima dele o prendendo em um abraço que mais parecia uma tentativa de estrangulamento.
— Eu te amo! – Davi disse, olhos cor de âmbar fixos em olhos esmeralda.
— Eu... – Pedro não conseguiu responder, e provavelmente nunca conseguiria. Ele já havia ouvido poucas e boas do seu pai adotivo, por ele andar sempre com Davi. Mas... É claro que Davi não estava falando disso dessa forma, era de forma platônica, Pedro concluiu, amor de melhor amigo, é isso. – Andei fazendo uma pesquisa.
Davi acenou para que Pedro continuasse, enquanto ele pegava uma fatia generosa do bolo posto à sua frente.
— Existe uma escola, numa cidade chamada Carapiúna, que é só para Turras. – Pedro continuou.
— Carápiuna? Onde fica isso? Não é nome de cidade grande. – Davi disse depois de engolfar a fatia de bolo.
— Carapiúna! Costumava ser uma cidade pequena, agora está modernizada, e fica um pouco longe, mas a escola é boa, é a única do tipo por aqui, mas tem dela no mundo todo. – Pedro continuou a explicação.
— Só para Turras?
— É, com aulas para controlar os poderes, desenvolver, e até encontrar uma função.
— Você não inventou isso tudo não ne? – Davi olhou para o amigo, uma ponta de esperança brilhando em seus olhos.
— Claro que não! Eu estava pensando... – Pedro engoliu em seco. – A gente podia ir pra lá estudar.
— É coisa de gente rica? – Davi perguntou ainda hesitante.
— Não, só precisa passar numa prova.
— Fácil assim?
— É a prova mais difícil do país, mas sim.
Davi respirou fundo e estendeu o dedo mindinho para o amigo, que rolou os olhos.
— Promete para mim, que um dia, nós dois vamos para essa tal escola, como chama mesmo?
— Setemptrionalem. – Pedro entrelaçou o seu mindinho com o do amigo. – Eu prometo.
Davi relaxou, e deixou a respiração que estava presa retornar, sorrindo para Pedro, e voltando sua atenção para um sanduíche, sem largar o mindinho do amigo.
E assim, Davi tinha um novo sonho para alcançar, mas tudo seria possível com seu melhor amigo ao seu lado.
— Anda logo Pedro! – Davi disse arrastando o amigo pelas ruas numa madrugada de março. Ele havia saído sorrateiro de casa, e esperado por Pedro por horas em frente ao portão da casa dele.
— Qual a pressa? – Pedro sabia bem que dia era hoje, e sorriu ao pensar que dois anos atrás ele mesmo havia feito algo parecido para Davi.
— Você sabe que hoje é um dia especial. – Davi disse sorrindo, os olhos brilhando, ele queria que fosse perfeito. – Quando as primeiras luzes de sol tocarem o nosso ipê, ele vai brilhar em duas cores, não é assim?
Pedro sentiu o rosto arder, ruborizando pela lembrança de que ele havia dito isso para Davi também, e caminhou mais rápido para alcançar o amigo.
Parecia que o tempo não tinha passado, que eles ainda eram dois pirralhos correndo descontrolados por onde passavam. Mas com quinze anos o tempo parece correr diferente, Pedro pensou consigo.
Chegando no alto do morro, o sol nem havia despontado. Davi já havia posto o piquenique, e Pedro riu, o amigo era sempre ávido demais para fazer as coisas.
Quando Pedro finalmente se sentou, Davi sorria como um louco, as mãos atrás de si. Pedro sabia que Davi queria dá-lo um presente, para o qual Pedro insistiu que a amizade era o maior presente que ele poderia desejar. Davi havia rido um pouco, mas concordado efusivamente. Claro que isso não o impediria de fazer algo significativo. Davi então mostrou o presente, uma tiara de flores.
— Eu sei que eu já te coloquei em várias enrascadas. – Davi disse, com as mãos tremendo um pouco. – E você não tem noção do quanto significa para mim, você ter ficado ao meu lado esse tempo todo.
— Você sempre foi o mais emocional dessa... – Pedro começou a dizer. – Amizade.
— E mesmo assim você ficou. Você é o meu primeiro amigo, e o meu melhor amigo. E hoje, quando o ipê não brilha duas cores, eu te coroo, meu príncipe.
Pedro ficou imóvel enquanto Davi ajeitava a tiara sobre seus cabelos. O que isso significava, Pedro tentava entender, mas seu coração insistia em barulhar mais alto que seus pensamentos.
Davi então o abraçou apertado, coisa que ficou menos rara nos últimos anos. O rapaz mais alto sempre foi o mais afetuoso.
— Eu te amo. – Davi sussurrou. E Pedro não soube o que dizer.
— É claro, eu sou seu melhor amigo. – Era isso não era, Pedro pensou, como melhor amigo.
Davi parou o abraço e se afastou, e Pedro sentiu que não era aquilo. Davi se jogou de volta ao seu lugar sob o Ipê. Cada segundo de silencio que sucedeu só serviu para aumentar o temor que assombrava Pedro.
Alguém já havia feito um boato sobre os dois amigos, e o pai adotivo de Pedro o havia punido, mesmo quando o garoto negou e jurou que nada daquilo era verdade, o senhor João disse que era um corretivo prévio, para que ele lembrasse de não fazer nenhum ato de depravação enquanto estivesse sob o nome e teto dos Pelegrini.
Pedro queria dizer que não tinha medo, de não ter um teto, ou um nome, mas não seria verdade. Ele queria pensar que enquanto ele tivesse um amigo, tudo ficaria bem. Mas o senhor João talvez fosse mais inteligente do que deixava transparecer, pois ele fez uma ameaça ainda maior que a violência física. Se ele ficasse sabendo de qualquer coisa assim, em vez de punir Pedro, ele daria cabo de Davi.
Pedro não era capaz de apostar seus bens materiais, mas muito menos ele era capaz de apostar a vida de Davi.
Se Davi sentisse algo por ele, se fosse recíproco, aquilo poderia apenas terminar em tragédia. Não foi assim que Pedro queria passar seu aniversário de quinze anos.
Pedro estava há uma semana sem conversar com Davi, e não era porque eles não estavam se vendo, eles se viam todo dia na escola ora essa. Mas toda vez que Davi se aproximava, Pedro quase corria dele. Davi não conseguia entender. No último domingo mesmo eles estavam juntos no morro, rindo e falando asneiras. Bem, Davi estava falando asneiras, e Pedro estava rindo.
Estava mesmo? Davi tentou se recordar. Talvez não rindo rindo, mas sorrindo? Um pouco. Agora sim Davi estava preocupado. Talvez houvesse acontecido algo na casa dos Pelegrini. Talvez eles finalmente tivessem se cansado de Davi tomar tanto tempo de Pedro. Os pensamentos de Davi espiralavam, mas somente uma pessoa podia tirar suas dúvidas, e nesse compasso, para conversar com Pedro ele teria que emboscá—lo.
Então era isso. Davi olhou para a pulseira que ele carregava consigo há oito anos, ele podia sentir seu queixo encharcado de lágrimas. Em desalento ele voltou para casa, e enterrou o rosto no travesseiro, ainda agarrado a pulseira, como se de alguma forma aquele entrelaçado de linhas verdes pudesse sanar suas dúvidas ou o livrar daquela angústia. O que podia ter dado tão errado?
Pedro havia ido embora. Era isso. Depois de três dias inteiros sem ver nem sombra do amigo, ele foi até a casa dos Pelegrini, talvez Pedro estivesse doente. Isso explicaria porque ele havia o evitado tantos dias seguidos. Era isso. Só podia ser isso. Mas então o senhor João Pelegrini o informou, por interfone, que Pedro havia conseguido uma bolsa para estudar numa escola numa cidade que Davi já não lembrava o nome.
Como? Por que? Davi não entendia, não conseguia entender, como seu melhor amigo, seu único amigo, podia ter ido embora assim, sem dar explicação, nem um adeus. E a promessa que eles haviam feito? Não havia significado nada para Pedro? Quando mais Davi pensava, mais doía. Em pensar que...
Pedro não havia dito de volta. Dois anos antes, sob o Ipê que era praticamente deles, Pedro não havia dito que o amava. Claro que Davi, na época, não havia pensado nisso como uma confissão romântica, mas ainda assim, ele esperava que um dia Pedro dissesse. Ele esperou que Pedro dissesse quando Davi rolou morro abaixo por causa de uma onda de energia muito forte que ele liberara, e com os braços ao redor de Davi, o rapaz mais alto esperou que Pedro dissesse. Davi esperou que Pedro dissesse as três palavras quando alguém insultou Pedro e Davi, pela primeira vez, retrucou com um soco, o que apenas serviu para que ele levasse um soco ainda mais forte de volta, e enquanto Pedro cuidava do seu olho inchado, e segurava sua mão, Davi esperava que Pedro dissesse que ele não se metesse nesse tipo de confusão, porque ele o amava, e não queria que ele se machucasse.
Pedro nunca disse. Mesmo quando no aniversário de quinze anos de Pedro, quando Davi montou uma tiara de flores para o amigo. O aniversário, que havia sido um mês atrás. E quando o sol tocou as primeiras luzes no morro, e Davi coroou Pedro